A tradição de um pensamento positivo e de caráter lógico formal buscou reiteradamente simplificar o que é complexo, propor essencialidades, realizar purificações, padronizar os processos e pôr em caixinhas o pensamento. Há, no entanto, uma série de intelectuais fora de série que se recusaram a seguir essa perspectiva lógica e entre elas, podemos dizer, está Rogério Bezerra. É fato, Rogério Bezerra não descobriu a pólvora da crítica, mas foi capaz de integrar em sua formação, investigação, interpretação e escrita elementos de profundo rigor em pesquisa documental e uma demolição construtiva ou construção demolidora de certos lugares comuns.
O livro sobre Dirceu Lino de Mattos é apenas uma parte, quase uma sobra de pesquisa, uma esquina na longa e profícua investigação de doutorado que realizou Rogério Bezerra sobre a geografia, geógrafas e geógrafos da Universidade de São Paulo, que acabou se tornando uma belíssima tese. Há em Dirceu Lino de Mattos uma dialética e contraditória condição marginal e central. Simultaneamente, o personagem buscou como geógrafo estar entre aqueles que ocuparam postos no departamento de Geografia, mas acabou por fazer carreira na Geografia Econômica da Faculdade de Economia, onde pôde realizar uma carreira brilhante.
Além disso, entre filhos da aristocracia, a exemplo de Aroldo de Azevedo, Dirceu teve outra origem social, vindo de uma família de trabalhadores que ascendeu por intermédio da educação e se firmou na política. Por fim, entre as contradições está o fato de Dirceu ter acesso a uma literatura mais crítica, não diria necessariamente marxista, enquanto o grupo de Aroldo de Azevedo era sabidamente positivista e conservador. As heranças de Dirceu Lino de Matos acabaram, haja coincidências ou não, por desenhar de modo meio espiralado certas linhagens, já que ele foi Dirceu o orientador de Armando Corrêa, que orientou Antônio Carlos Roberto de Moraes, que orientou a mim, que acabei por desorientar o Rogério Silva e com ele aprender o pouco que sei sobre o pensamento de Michel Foucault.
O mais importante, além de delícias como a de saber que Dirceu Lino de Mattos, a exemplo de Armando Corrêa da Silva, era poeta, é saber que a geografia crítica e radical avançou um pouco pelas margens, percorrendo trajetórias historicamente invisibilizadas e fazendo verso e política. O belo trabalho sobre Dirceu Lino de Matos, feito por Rogério Bezerra, é um ponto fora da curva como crítica à linearidade hegemônica de certas versões da história da geografia no Brasil.
Dr. Manoel Fernandes de Sousa Neto
Professor Titular da Universidade de São Paulo (USP)