‘O coração pensa constantemente’, de Rosângela Vieira Rocha, desperta emoções

Por Lucília Garcez

De que é feita a literatura? Da observação sensível da natureza humana empreendida pelo autor, da sua imaginação, dos vestígios da sua memória, da sua capacidade de reflexão, da sua técnica narrativa e principalmente da sua habilidade de despertar emoções. Rosângela Vieira Rocha se revela mais uma vez uma escritora em plena intimidade e domínio de todos estes fatores em seu último romance O coração pensa constantemente (Editora Arribaçã – aquisições: rosavi@uol.com.br ).

Com nítidos tons autobiográficos, o romance focaliza uma personagem (Luísa) que perde uma irmã mais velha muito querida (Rubi) e se aprofunda na análise dos diversos aspectos que estabelecem o indissolúvel e delicado vínculo afetivo entre as duas no decorrer de toda a vida. Nenhuma perda é igual a outra. Cada uma é única. Cada luto é um luto diferente. E acompanhar o declínio da saúde da irmã é um suplício. Entrelaçando os dias atuais de pandemia e isolamento e o diálogo com a irmã morta, a estrutura narrativa promove uma volta à pequena cidade do interior onde passaram a infância e a adolescência.

Cotidiano familiar, comemorações, episódios curiosos, inocentes carnavais, bailes, footings, circos, flertes, namoricos, relação com a natureza, costumes de uma sociedade simples em que a televisão ainda não tinha chegado. Tudo isso constitui um delicioso retrato da vida (que não existe mais) em uma cidadezinha brasileira sem muitos recursos entre as décadas de 1950 e 1960. Não dispunha nem de escola de ensino médio. Nesse ambiente nasce e cresce a admiração pela irmã mais velha: ousada, elegante, atrevida, original, criativa, corajosa, engraçada.

Um livro comovente que nos faz refletir sobre a vida, as escolhas, a esperança, o sonho e a morte.

 

(Lucília Garcez é doutora em Letras e escritora – Texto publicado no Correio Braziliense em 15 de janeiro de 2021)

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