Impressões sobre “Nenhum espelho reflete seu rosto”

Por Marília Arnaud*

“Nenhum espelho reflete seu rosto”, de Rosângela Vieira Rocha, publicado pela Arribaçã Editora, conta a história de Helen, uma mulher de 40 anos, designer de joias e dona de joalheria, que se envolve com um argentino (Ivan), através de uma rede social, vindo em seguida a conhecê-lo pessoalmente e a se apaixonar por ele.

O affair começa com mensagens (FaceBook), e se intensifica com e-mails e telefonemas que vão se tornando cada vez mais longos, vindo a se consolidar com o convite de Ivan para que Helen vá visitá-lo em Buenos Aires. Um pouco insegura, mas disposta a correr riscos, organiza-se para passar alguns dias longe do trabalho. A primeira surpresa acontece logo na chegada a Buenos Aires, com o atraso do seu anfitrião por quarenta minutos. Depois, com o apartamento para onde Ivan a conduz, um espaço tão exíguo e pouco acolhedor quanto o seu dono, impressão, todavia, em que Helen se recusa a acreditar, a lucidez àquela altura já obscurecida pela paixão.

Em algum momento da narrativa, Helen observa que ”Deveria ter levado esses alertas interiores a sério, mas não o fiz.” Sim, esses alertas ocorrem em vários momentos, especialmente por ocasião da sua permanência em Buenos Aires, quando passam os dias juntos em passeios financiados por ela, uma vez que Ivan está, justo naquele momento, com sérios problemas financeiros. Porém, em meio aos sinais e às esquisitices, às “excentricidades ivanísticas”, que “vinham intercaladas e em doses homeopáticas”, Helen sentia-se adorada, mimada como nunca havia sido, erguida em um pedestal.

A princípio sensível, gentil, cativante, “intrigante e meio desafiador”, logo Helen se vê enredada na teia de ambiguidade e frieza de Ivan, que no dia a dia vai se denunciando emocionalmente instável, extremamente vaidoso e egocêntrico, incapaz de enxergar o outro, mesmo o outro sendo a mulher por quem se diz apaixonado, além de mesquinho, mentiroso e manipulador, revelando-se, ao final, capaz de atos criminosos.

Alguns anos após pôr fim ao romance com Ivan, quando Helen começa a narrar a sua história, em forma de e-mails para um psiquiatra que está tratando de uma paciente que teria sido igualmente sua “vítima”, refere-se a ele como um “cadáver vivo”, o que diz bem das lembranças vívidas e pesadas que a narradora guarda da convivência com o mesmo, sendo o esquecimento “uma graça tão difícil de se alcançar”.

Em contraponto a este ser escuro, impenetrável, que nenhum espelho consegue revelar, as pedras semipreciosas com que Helen trabalha apontam para um universo de luz e real beleza. O certo é que foi em seu ofício de sonho, no brilho e na integridade das gemas, na verdade de esmeraldas, águas-marinhas, ametistas, citrinos, ágatas, topázios, safiras, que Helen encontrou forças para se libertar de Ivan, e renascer, e voltar a ser ela mesma.

Helen é uma narradora delicada, elegante, honesta, e assim como a autora, sensível à fragilidade humana, tanto que não há como sair da leitura de “Nenhum espelho reflete seu rosto” sem se sentir tomada de empatia por sua protagonista.

*Marília Arnaud é escritora paraibana, autor de “Suíte de Silêncios” e “Liturgia do fim”, entre outros. O texto acima foi publicado em seu perfil no Facebook no dia 5 de julho de 2019

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