Diversidade produzida no interior da PB

Por Marcos Carvalho

 

A literatura congrega em si o reconhecimento, daquilo que é consagrado pela maioria. Os silêncios e as ausências de mulheres, pessoas negras e das periferias nesse campo ficam ainda mais evidentes quando lançamos um olhar sobre os contornos do território. Embora a internet tenha ampliado as possibilidades de produção, divulgação e circulação literária, os grandes centros urbanos ainda concentram editoras, livrarias, festivais e outros espaços de legitimação. Para quem vive longe desses espaços, as margens existenciais confundem-se com as geográficas.

A professora e escritora Daniele Pereira, de São José da Lagoa Tapada, no Sertão da Paraíba, experimenta bem essa realidade. Hoje ela reconhece que demorou bastante para se assumir como escritora. Ainda criança, juntava as amigas para contar histórias que ela mesma inventava. Depois começou a escrever, mas, até bem pouco tempo, não mostrava a ninguém. Sentia medo e até uma certa vergonha do que iriam pensar.

“A escrita era um lugar muito meu, quase secreto. Comecei a permitir que o outro lesse o que eu escrevia, a participar de projetos, publicar e entender que um texto não termina necessariamente quando colocamos o ponto final”, relata a escritora. A importância de espaços para encontrar outros escritores e compartilhar os textos mudou a experiência de Daniela, que já publicou três livros: o primeiro deles, Perfil, em parceria, e o mais recente, Depois do verbo, vencedor do 3º Concurso de Poesia Arribaçã, promovido pela editora de mesmo nome, sediada no município paraibano de Cajazeiras.

Nesse entremeio, Daniele publicou No fechar dos olhos, uma coleção de contos de horror. O gênero fantástico sempre a fascinou pela fissura que promove na realidade. Longe dos estereótipos da casa abandonada e do sobrenatural, ela trabalha o assustador e inexplicável presente nas contradições da condição humana, marcadas pelo desejo, medo e silêncio daquilo que se experimenta, mas não se consegue nomear. O estranho que procurava fora, hoje percebe que está dentro, atravessado pelas marcas do território.

“Sou sertaneja e escrevo a partir desse lugar, mas não acredito que precise colocar mandacaru, seca ou qualquer outro símbolo reconhecível em cada página para provar isso. O Sertão não precisa necessariamente ser o assunto daquilo que escrevo. Ele já é o lugar de onde eu olho”, afirma a escritora, que recorre a memórias e oralidades próprias de seu entorno, sem se restringir a elas.

Para a autora, a identificação de escritores “sertanejos”, “caririzeiros” ou “brejeiros” amplia a compreensão da diversidade da literatura produzida na Paraíba, pois localiza sua palavra não só geográfica, como cultural e afetivamente. Em contrapartida, reconhece que é preciso ter cuidado para que essa identidade não se transforme em uma espécie de “cercado literário”. Nesse sentido, ela mesma se coloca como contraponto: uma sertaneja escrevendo terror, fantástico, conflitos psicológicos, amor, corpo, linguagem e poesia. “Gosto da identidade regional quando ela diz: ‘Olhe também para o que está sendo produzido aqui’. Não quando diz: ‘Você só pode escrever sobre isto’”.

O território geográfico, no entanto, nem sempre favorece a produção literária. Ainda que a rede mundial de computadores tenha rompido muitas distâncias, são os grandes centros urbanos, no caso da Paraíba, João Pessoa e Campina Grande, que concentram as editoras e eventos, dificultando a publicação e o acesso dos leitores aos escritores do interior. Para Daniele Pereira, o maior desafio ainda é chegar ao leitor e ser lida. Nesse sentido, ela lembra que não basta à escritora independente e do interior apenas escrever: é preciso divulgar, apresentar, vender, procurar eventos, conversar com leitores e criar suas próprias oportunidades.

“Acho que precisamos aprender a olhar mais para perto. Às vezes, conhecemos detalhadamente escritores que estão do outro lado do mundo e não sabemos quem está produzindo literatura na cidade vizinha. Não se trata de substituir uma literatura pela outra, mas de ampliar o nosso olhar. Há muita gente escrevendo no interior. Talvez ainda faltem mais pontes para que essas escritas circulem”, defende Daniele Pereira.

Localizada em Cajazeiras, no Sertão Paraibano, a Editora Arribaçã vem suprindo um pouco essa lacuna, ainda que não se restrinja a publicar apenas autores do interior nem tampouco da Paraíba. A iniciativa surgiu com o retorno do poeta e jornalista Linaldo Guedes à sua terra natal, após anos de atuação na imprensa e no setor cultural de João Pessoa. As primeiras propostas de publicação foram de autores de sua rede de contatos. Hoje ele publica escritores que o procuram de diversas regiões do país.

“Estamos abertos a publicação de qualquer livro de qualidade, sem essa preocupação de somente autores do interior, mas a editora acaba incentivando esses escritores, abrindo espaço para eles. E eu tenho muito prazer em publicar novos autores”, confessa Linaldo Guedes, que reconhece a concentração do circuito editorial voltada para os grandes centros urbanos. A lista de publicações inclui autores de cidades das regiões do Sertão, Cariri e Brejo paraibanos, assim como de outros estados do país.

Para incentivar a descoberta de novos escritores, o editor criou o Concurso de Poesia Arribaçã, que teve Daniela Pereira como vencedora da mais recente edição, realizada neste ano. O projeto recupera o modelo dos antigos concursos, nos quais os autores submetem seus originais com pseudônimos. Os ganhadores têm sua obra publicada, ampliando as possibilidades de entrada no mercado editorial. “Isso abre muitas portas. Eu vejo como, depois, os primeiros vencedores já publicaram vários livros por outras editoras. Por aí vejo que o objetivo do concurso foi cumprido”, ressalta Linaldo Guedes.

Para além de publicar, é preciso fazer circular. Iniciativas como o Mulherio das Letras — Sertão, realizado em Cajazeiras, em 2022, e a Festa Literária de Boqueirão (Flibo), no Cariri paraibano, representam formas de descentralização do debate literário, tradicionalmente concentrado nos grandes centros urbanos. Fomentam, ainda, a aproximação entre autores dessas regiões, estimulando a formação de redes de produção e colaboração.

Não se pode deixar de mencionar as contribuições da internet para tornar as obras mais conhecidas e fazer chegar aos leitores. Para Linaldo Guedes, as redes quebraram muitas distâncias e têm promovido uma verdadeira revolução na literatura. “Apesar da queda do livro impresso, a internet estimula muito a circulação do que você escreve. Mil pessoas, por exemplo, podem ler seu poema nas redes, gostar ou não gostar, comprar ou não seu livro, mas sabe que aquele autor existe, que ele faz poema, conhece o estilo da poesia dele”.

As redes são também a forma que Daniele Pereira encontra para driblar os desafios de residir fora dos grandes eixos. “Se o livro não consegue pegar a estrada, a gente dá um jeito de fazer o texto viajar sozinho”, revela ela, que publica no site Recanto das Letras e por lá tem estabelecido uma relação de fidelidade com leitores, boa parte deles acima dos 60 anos de idade.

“Em um tempo de vídeos de poucos segundos, textos cada vez menores e uma disputa enorme pela atenção, tenho leitores 60+ que chegam, leem, comentam, voltam para o próximo texto e acompanham o que escrevo. Alguns já reconhecem minha escrita. É muito bonito perceber que existem pessoas esperando uma história, uma crônica ou qualquer coisa que eu resolva publicar”, confessa, relembrando do tempo que, ainda criança, no recreio da escola, juntava as amigas para contar histórias. A diferença, agora, é que seu público está espalhado por vários lugares.

Daniele Pereira dribla os desafios impostos pelo campo ocupando espaços possíveis. Se as plataformas digitais, os concursos ou projetos não vingam, ainda lhe resta a sala de aula. Como professora de Língua Portuguesa e Literatura, acredita e defende a formação de leitores e procura aproximar os alunos da escrita, incentivando-os a reconhecerem o valor daquilo que produzem. “Quando a distância aparece, tento fazer a palavra caminhar. E ela acaba chegando a lugares e pessoas que eu nunca imaginei”.

 

(Matéria publicada no jornal A União, de 27 de setembro de 2026)

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