Foi lançado, sábado último, o livro “Mulheres que resistem nas margens: arte e gênero na Paraíba” (Arribaçã Editora, 2025), pesquisa da professora doutora Madalena Zaccara (professora da UFPE e com currículo vasto e potente) e doutora Sabrina Melo (historiadora e museóloga e professora da UFPB). “94 perfis, recuperando histórias, obras e trajetórias que muitas vezes permanecem dispersas ou pouco registradas na historiografia artística. A obra se dedica a investigar, documentar e valorizar parte da trajetória das mulheres artistas visuais que atuaram na Paraíba, com recorte temporal que se inicia na década de 1920 e se estende aos dias atuais”.
O evento aconteceu no Sesc, no último dia 14/3, com muitas artistas presentes, mesa composta por mulheres talentosas, falas ricas e um brunch delicioso com direito a admirar a exposição 80 anos de cultura: retrospectiva artistas do Sesc Publica, que também acontecia naquele espaço.
Madalena Zaccara foi um nome importante na minha adolescência. Mulher moderna, inquieta, que quebrava os costumes ditos para as meninas, e voava. Pela João Pessoa provinciana e pelo mundo. Até hoje arrebenta, trabalha, transita, cria, pesquisa e vai. Por aqui e pelo mundo. Madalena fez a apresentação. Falou de como o gênero afeta a criação; por que não houve mulheres artistas? As barreiras sociais… Como não lembrar de Virginia Woolf quando foi fazer a sua palestra em Cambridge e observou que os homens tomavam vinho e as mulheres água, pelo cascalho que as levavam a outros espaços sem importância. Ou de Simone de Beauvoir, que, quando pesquisava para escrever O segundo sexo, também notou a ausência de mulheres escritoras nas estantes das bibliotecas. E Woolf responde em alguns dos seus ensaios que, no caso da literatura, as mulheres sempre escreveram, mas os costumes, a rotina doméstica exaustiva, os escritos guardados nos baús que desapareciam, silenciaram as suas vozes e apagaram as suas vidas. Ademais: “Com frequência nada resta de tangível do dia de uma mulher. Tudo o que ela cozinhou foi comido; os filhos dos quais cuidou já saíram mundo afora. A que então dar ênfase? Sua vida tem uma característica anônima que desconcerta e intriga ao extremo”.
A artista plástica Marlene Almeida falou de como a política está entranhada na sua vida desde sempre; falou de Cezanne, das irmãs do Colégio das Neves (também silenciadas pela invisibilidade de uma mulher freira), irmã Marta! Fiz uma digressão até a minha tia Margarida, que estudou interna nesse colégio por 18 anos e saiu bordando e pintando que nem uma beleza! Tudo com essa mesma irmã Marta. Falou que quase se molhou nas ondas de Cristina Strapação, outra artista compondo a mesa, das antecessoras que abriram caminhos, dos materiais, das cores e tantos outros mistérios das tintas.
Celia Gondim, artista naïf, falou dos coletivos, da sororidade entre as mulheres artistas e seus percalços, enquanto Cristina Strapação, vinda de Curitiba, mas já aqui há 20 anos, nos relatou que as dificuldades de as mulheres furarem a bolha masculina da expressão é grande, e, o mais intrigante, que, só depois da maternidade, o seu ser artista explodiu. Parindo os filhos, Cristina também pariu a sua arte dos mares, das águas e ondas mar adentro. Ressaltou também de como a expressão artística das mulheres, prioritariamente, sempre ocupou um lugar de hobby ou passatempo. Uma arte menor. E se perguntou: “Cadê o tempo para pintar?”. A cronista gaúcha Martha Medeiros, em sua coluna de hoje em O Globo, menciona o tema e fala que as mulheres jámais poderiam largar marido e família para ir buscar sua arte no Taiti, como o fez Paul Gauguin.
Cris Peres ressaltou o aspecto indissociável entre vida e arte. E, mais ainda, os aspectos interseccionais, raça e gênero. Para ela, vinda de uma casa feminina — saudou a mãe e a avó presentes na sala e falou da figura masculina como ausência e vazio intransponíveis. Apontou para o seu trabalho no comércio, como um ambiente também de invisibilidade; da Paraíba como um lugar fora do eixo e das relações decoloniais; das conquistas da memória/corpo; existência/ausência, e do que é possível. Mencionou também a bolha gigante que é o mundo masculino e o estouro que se faz enorme. As mulheres abrindo caminhos. O levante. A rebeldia. E citou a teórica Gayatri Spivak: “Pode o subalterno falar?”.
Roseli Garcia, pioneira com a sua Galeria Gamela, falou também da importância dessa pesquisa e nos convidou a todos para uma exposição celebrativa no próximo dia 18, na Gamela, em novo endereço, no bairro de Jaguaribe.
Parabéns a: Gina Dantas, Analice Uchoa, Alice Vinagre, Ana Lima, Ana Lúcia Pinto, Celene Sintônio, Celia Gondim, Cris Peres, Cristina Strapação, Heloisa Maia, Ivanusa Pontes, Lu Maia, Maria dos Mares, Marlene Almeida, Marta Penner, Raquel Moura, Rosilda Sá; em nome delas, saúdo todas as outras perfiladas e àquelas que ainda estão no esquecimento.
(Texto publicado no jornal A União, em 17 de março de 2026)
