Holofote focado nas artistas

Por Esmejoano Lincol

 

A expressão “estar à margem” carrega consigo, de pronto, um sentido negativo de exclusão e de invisibilidade diante de um segmento maior e aparentemente dominante. Mas este não pode ser o único significado atrelado a tais palavras. É justamente nas margens de rios que os biomas e as cidades do mundo florescem e frutificam. O livro que as pesquisadoras Madalena Zaccara e Sabrina Melo lançaram, recentemente, em formato digital navega pelas trajetórias de mais de 90 artistas visuais paraibanas, não somente para dar vazão a esse segmento da nossa cultura, como também para dizer que apesar dos preconceitos elas perseveram — e produzem. Mulheres que Resistem nas Margens – Arte e Gênero na Paraíba ganha, agora, uma versão em formato físico, em pré-venda no site da editora Arribaçã por R$ 80.

A obra remonta a produção artística de mulheres nascidas ou radicadas no estado, a partir do relato de sua trajetória no segmento e com a catalogação, em imagens, de algumas de suas obras. Os 92 perfis reunidos nesse levantamento estão dispostos em verbetes em ordem alfabética e representam gerações diversas — da pioneira Amélia Theorga Alves, passando pelo legado de artistas veteranas, ainda em atividade, a exemplo de Alice Vinagre, Analice Uchôa e Marlene Almeida, desaguando nas jovens Bruxe, Cris Peres e Pri Witch.

Madalena Zaccara e Sabrina Melo são ambas professoras. A primeira é pessoense e acumula 30 anos de carreira, atuando no Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal de Pernambuco (DAAV-UFPE); sua trajetória profissional foi consolidada, a propósito, em Recife. A segunda nasceu em Belo Horizonte (MG) e tem formação em História e em Museologia. Desde de 2019 é vinculada ao Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal da Paraíba (DAV-UFPB), onde a pesquisa para o livro foi consolidada. Detalhando as motivações que cercam essa empreitada, as autoras reforçam que o interesse das duas partiu de outras pesquisas prévias sobre o apagamento das mulheres nas artes visuais que, finalizadas, são ferramentas de resgate dessa memória.  “Em 2017, coordenei atividade semelhante em Pernambuco, incentivada pelo Funcultura, e em 2021 publiquei mais um livro. Foi o produto de um pós-doutorado realizado em Paris”, detalha Madalena.

O novo livro nasce, por sua vez, de um estudo de três anos sobre o segmento feminino das artes na Paraíba. Nesse período, outras ações correlatas foram criadas, desde projetos de extensão à promoção de colóquios como o “Elas nas Artes Visuais da Parahyba”, que está na 11a edição.

“Para a realização do livro, contamos com o apoio de discentes do curso de Artes Visuais, que participaram ativamente dessa iniciativa, contribuindo para o levantamento de dados, organização de acervos e reflexão crítica que fundamentam a obra”, aponta Sabrina. A primeira versão da obra, em formato digital, veio a público no fim do ano passado. Além do texto introdutório assinado por Madalena e Sabrina, Mulheres que Resistem nas Margens conta com prefácios de docentes como Patricia Fogelman, da Universidad Nacional de Tres de Febrero (Untref), na Argentina. O e-book pode ser acessado na página do Programa Associado de Pós Graduação em Artes Visuais (PPGAV-UFPB/UFPE). “Na versão em papel, tivemos os limites do patrocínio e as imagens são em preto e branco”, informa Madalena.

 

Pensando o futuro

Esmiuçando seus processos, as autoras atestam sua maior dificuldade: a falta de informações, sobretudo no tocante às gerações mais antigas. Os arcabouços a que tiveram acesso concentram-se nos homens, fato recorrente em outros lugares do Brasil e do mundo. “Quando falamos de uma história da arte com recorte de gênero na Paraíba, enfrentamos uma dupla exclusão: de gênero e de região. Um exemplo foi o levantamento realizado na Pinacoteca da UFPB: só 7,6% das obras reunidas lá eram de autoras mulheres”, revela Sabrina.

Conforme a história era recontada por meio dessa investigação, detalhes esquecidos ou pouco mencionados sobre artistas paraibanas vieram à tona. Dentre os casos mais surpreendentes está o de uma mamanguapense, com forte atuação no início do século 20. “Saber da existência de um ateliê para ensino da pintura, em João Pessoa, sob o comando de alguém que foi tão importante para o cenário da época é fascinante. É o caso de Amélia Theorga, uma das artistas paraibanas mais marcantes de sua geração”, destaca Madalena.

Outras informações versam sobre a contundência da produção de desbravadoras como Helle Bessa, natural do município de Esperança. Uma porção relevante de seu acervo foi doada à Pinacoteca da UFPB.

Marlene Almeida, nascida em Bananeiras, é outra expoente na área. “Ela mantém ateliê ativo desde os anos 1970 e desenvolve pesquisa sobre pigmentos e aglutinantes naturais, utilizando a terra como matéria de trabalho em pinturas, esculturas e instalações, articulando práticas artísticas e questões ambientais”, compartilha Sabrina.

Explorando os motivos que precipitam o lugar “à margem”, que dá título ao livro, Madalena e Sabrina assentam que o preconceito é a razão principal da exclusão que persiste, mesmo que este atinja um segmento pretensamente mais livre, como artes visuais.

“O estar ‘mais livre’ é relativo. Apesar das conquistas, a mulher ainda enfrenta diferenças profissionais e existenciais no aqui e agora. Mais espaço de atuação em alguns países. Quase nenhum em outras culturas. Ainda estamos nas margens e delas fazemos história”, analisa Madalena

O trabalho das autoras e dos demais pesquisadores não se encerra nesta obra, já publicada: continua por meio de investigações documentais, entrevistas e de um formulário digital, disponibilizado no perfil @mulheresartistasnapb, no Instagram.

“A desigualdade é evidente. Os dados tendem a ser muito mais fragmentados e difíceis de acessar e isto está ligado a barreiras estruturais históricas que limitaram o acesso das mulheres a condições básicas para a criação e para a legitimação de suas obras”, justifica Sabrina.

Apostando na dinamicidade dos processos históricos e nas tensões positivas entre narrativas, Madalena Zaccara responde que é possível mudar esse cenário. Em trabalho recente, a estudiosa inglesa Katy Hessel questiona, por exemplo, o fato de A História da Arte, de Ernst Gombrich (um dos livros mais vendidos do mundo desde 1950), não elencar nenhuma artista mulher.

“O conhecimento se aprofunda no campo artístico também. Mulheres que Resistem nas Margens emerge como uma fonte para que outros pesquisadores aprofundem seu conhecimento”, resume Madalena.

Sabrina Melo, por sua vez, ressalta que essa jornada não será espontânea nem linear e que deverá ser acompanhada de políticas públicas que garantam a visibilidade das artistas em atividade e a preservação de sua memória. A academia também tem papel importante na consolidação de referências na área, junto aos estudantes.

“Pensar um futuro mais representativo implica compreender a história da arte como um campo em revisão, atento às assimetrias de gênero, raça, classe e território. Trata-se menos de ‘incluir’ mulheres em um sistema dado e mais de questionar as estruturas que produzem exclusão”, conclui Sabrina.

 

(Matéria publicada no jornal A União, em 18 de janeiro de 2026)

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