
Por Sérgio de Castro Pinto.
Hoje, superado o ciclo das vanguardas[1] – que rejeitavam a poesia confessional ao privilegiar o discurso metalinguístico e, assim, dissociar a criação poética da “marca suja da vida” –, o poeta torna-se um livre atirador. Liberto da tutela de um discurso hegemônico que se arrastou por anos, cabe-lhe agora incorporar à sua dicção lírica não apenas as conquistas das vanguardas, mas, sobretudo, dar voz aos ditames do eu profundo, sem a preocupação de seguir à risca quaisquer conteúdos programáticos.
Guilherme Morais Régis de Lucena é um poeta pós-vanguarda, e o é por privilegiar o brevê em vez de breviários estéticos. O brevê, nesse caso, lhe concede a liberdade de voar com as próprias asas, sem que se submeta às camisas de força de uma poesia pedestre, rasteira, incapaz de enxergar além do próprio nariz.
Cumpre observar que nem todos poetas pós-vanguardas deixaram de incorporar alguns recursos estilísticos da poesia concreta e dos seus desdobramentos. Esse, contudo, não é o caso de Guilherme, cujos poemas parecem alimentar-se de outros poemas – da leitura e da releitura de textos poéticos –, ao mesmo tempo em que o eu lírico se nutre de suas emoções, de seus ensimesmamentos, enfim, do seu estar-no-mundo.
E nada mais natural: se nenhum escritor cria sem antes ter lido outros autores, a leitura, por si só, não basta erigir alicerce sobre o qual o poeta constrói os seus versos. Afinal, um poema não se edifica apenas com palavras, mas também com ideias.
Assim, se não houver harmonia entre ideia e palavras, entre emoção e linguagem – se uma prevalece sobre a outra –, o poeta existirá como um albatroz impedido de voar, à semelhança daquele imortalizado nos versos Baudelaire: “Às vezes, por prazer, os homens da equipagem / Pegam um albatroz, imensa ave dos mares, / Que acompanha, indolente parceiro de viagem, / O navio a singrar por glaucos patamares. // Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés, / O monarca das águas, canhestro e envergonhado, / Deixa pender, qual par de remos junto aos pés, / As asas em que fulge um branco imaculado. // Antes, tão belo, como é feio na desgraça / Esse viajante agora flácido e acanhado! / Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça, / Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado! // O poeta se compara ao príncipe da altura / Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar; / Exilado no chão, em meio à turba obscura, / As asas do gigante impedem-no de andar”[2].
Massaud Moisés sempre alimentou um arraigado preconceito quando estabelecia um confronto entre a poesia lírica e a épica. Para o professor paulista, a poesia lírica estaria associada à fase da adolescência, da imaturidade emocional, enquanto a épica assinalaria o momento “em que o poeta alcança a maturidade interior”. Quanto a mim, sou daqueles que não acreditam em gêneros maiores ou menores, mas na competência do poeta, quer ele atue na esfera do lírico ou do épico.
Guilherme constrói e amadurece o seu lirismo a partir da linguagem. E, se esse discurso nem sempre se caracteriza pela concisão, é porque o que ele tinha a dizer não cabia em poucas palavras. É preciso distinguir o poema discursivo daquele que se reduz a uma verdadeira catadupa verbal, de inspiração bacharelesca, cujo autor desconhece a arte de “torcer o pescoço da eloquência”.
Os poemas desse livro são substantivos: linguagem e emoção andam lado a lado, sem que uma se perca da outra, sem que a emoção ultrapasse o que a linguagem é capaz de sustenta. Enfim, “Amor é essa cidade em que dormes” reúne poemas sentimentais sem efusões sentimentais, justamente porque a linguagem mede e remede o que pode dizer – o que ultrapassa o seu alcance.
Muito amadurecida a estreia de Guilherme Morais.
[1] Claro que reconheço a importância do concretismo, da poesia práxis etc., na lírica brasileira. Aqui, faço referência à saturação das vanguardas e à insistência dos seus epígonos em tentarem a todo custo prorrogar o prazo de validade delas.
[2] Poema de Charles Baudelaire traduzido por Ivan Junqueira.