O professor Aldo expõe mais uma criação: Além dos Rios da Memória, cujo enredo se desenrola na querida Mamanguape, sempre inspiradora para com seus filhos escritores. Reconhece que “um povo sem memória é um povo sem história” (Emília Viotti), e, portanto, valendo-se da sua formação acadêmica, transita entre a História, Sociologia, Antropologia e Psicologia, a fim de nos presentear com esta obra rica e carregada de informações que, semelhante a um rio, carrega e deposita sedimentos, assim vão sendo transportados elementos concretos e abstratos, que espalham por diferentes paisagens e aglomerados urbanos.
Neste cenário, surge o personagem Oscar: misto de artista, pela sua musicalidade, e o bibliotecário e pesquisador, por sua curiosa imaginação. Oscar não o reconheceu de imediato, só o fazendo no encerramento do encontro entre os dois. Neste campo fértil, o real e o imaginário se fundem através dos diálogos entre o músico e o misterioso pesquisador.
E assim vão conversando, sobre o passado e o presente. Falam sobre o Rio Sertãozinho, a Mata Ciliar hoje devastada, do encantamento das festas religiosas e populares, dos famosos visitantes Dom Pedro II e Getúlio Vargas, do teatro Santa Cecília, dos significados, das lendas, do cemitério, do reino dos Correias, o corte das pedras, a transição dos engenhos para usina, enfim: tradições e costumes de uma comunidade que fixou suas raízes nesta região do Vale do Mamanguape e que, ao longo de sua existência, viu seu apogeu através da sua ascensão econômica e cultural, e também sofreu com o colapso econômico no início do século XX, que deixou marcas profundas na sua rede urbana e na vida das pessoas.
Uma beleza de personagem, onde a ideia de que “os lugares também falam através das pessoas e sobretudo, do lugar da história na vida das pessoas”. Este olhar do autor, sob novas lentes: memória individual-coletiva e fatos-eventos significativos, nos permite vislumbrar um passado cultural que não deve ser relegado: “o quebrar modelos gerais é reafirmar uma imagem que é somente do grupo, e que, portanto, diferencia-se dos demais, provocando, paradoxalmente, sentimentos de pertença e identidade que compartilham as mesmas experiências, sensações e representações”.
Enfim, encontramos nesta obra motivos para despertar novos sentimentos, novos olhares, e por que não novas atitudes – é o que nos provoca o autor. Os tempos mudaram. A poetiza mamanguapense Nízia Fernandes, no seu poema Vazante da Maré, dizia que:
O que passou se acabou
E nunca mais vai voltar:
Venham ver a barca nova
Que do céu caiu no mar.
Caros leitores, o professor Aldo, com esforço silencioso, solidário e costumeiro a todo pesquisador, convida-nos a repensarmos sobre o tropeçar desses novos tempos, direcionando nossos olhares para o novo e sem jamais esquecermos o passado.
Inês Lyra Fernandes