Sobre “O amor vence o luto”

Falar sobre luto nunca é simples. É revisitar lugares da alma que ainda doem, mesmo quando já cicatrizados. Ainda assim, há dores que precisam ser narradas, não para serem revividas, mas para serem ressignificadas. Este prefácio nasce exatamente desse lugar. Da dor, da saudade, da ausência e, sobretudo, da superação.

Minha história com o luto não começou em 2024.

Perdi meu pai muito cedo, quando eu tinha apenas oito anos de idade. Naquele tempo, restamos eu, minha mãe e meu irmão, que à época contava somente doze anos. O luto infantil é confuso. Não se compreende plenamente a morte, mas sente-se profundamente a ausência. Faltava o colo do meu pai, sua presença, sua proteção silenciosa. O mundo seguiu, mas algo essencial havia sido arrancado de nós.

Minha mãe, então, tornou-se tudo. Pai, mãe, abrigo e força. A duras penas, ela nos carregou. Não apenas pela vida material, mas emocionalmente. Hoje, acredito que ela nunca superou verdadeiramente aquela perda. Ela apenas decidiu seguir. Decidiu ser forte por nós. Transformou sua própria dor em sustentação, mesmo que isso lhe custasse silêncios profundos e um cansaço que jamais verbalizou.

Ela foi o nosso alicerce.

E foi justamente essa mulher, que já havia suportado tanto, que perdi em junho de 2024, após uma intensa e desgastante luta contra o câncer. Foram exatamente um ano e seis meses de idas e vindas a consultórios, tratamentos dolorosos, esperas angustiantes e uma rotina que consumia não apenas o corpo dela, mas também o meu espírito. Estive ao lado dela desde o início. Desde o diagnóstico. Aliás, desde antes que ela soubesse.

Enquanto os médicos fechavam questão sobre a gravidade da doença, guardei aquele diagnóstico comigo por cerca de um mês. Não contei a ela. Acreditei que estava protegendo-a. Hoje sei que, naquele silêncio, algo dentro de mim também começou a morrer. Sustentei todo o tratamento com presença, força e coragem. Pelo menos era assim que eu aparentava. Porque, por dentro, só Deus sabia o quanto eu estava em pedaços.

Então chegou o dia temido. O dia do falecimento.

Na noite anterior, dormi ao lado dela. Ela dormiu a noite inteira, algo que, estranhamente, me inquietou. Pela manhã, deixei-a aos cuidados de pessoas que sempre estiveram presentes durante o tratamento e fui trabalhar. Ainda tomava café quando começaram a chegar as mensagens. Ela não estava se sentindo bem. Tentei me tranquilizar enquanto dirigia de volta para sua casa. Mas, no meio do caminho, recebi a notícia que eu mais temia. Minha mãe havia deixado este plano terreno.

Cheguei à sua residência em meio à euforia do desespero. Choro, gritos, lamentos. Eu estava sem chão, sem norte. Costumo dizer que, quando perdemos os pais, é como se o barco perdesse o leme. Eles são aquilo que nos orienta. Mesmo quando aprendemos a voar, em algum momento precisamos voltar ao ninho, recalcular a rota, encontrar sentido. Naquele instante, eu já não tinha mais para onde voltar.

Eu já havia perdido meu pai. Agora, perdia também minha mãe. Aquele ninho, aquele porto seguro, o lugar onde eu pousava para me reabastecer de amor, força e sentido.

É verdade que eu não estava sozinho. Tenho minha família, minha esposa e meus filhos, que estiveram e estão comigo à sua maneira, muitas vezes de forma silenciosa, mas constante. Um amor que não faz alarde, que não exige explicações, que simplesmente permanece. E não há remédio mais curativo do que o amor.

Ainda assim, compreendi algo duro e inevitável. O ninho da casa dos pais não existia mais. Nenhum outro amor, por mais verdadeiro e profundo que seja, ocupa esse lugar específico. Ele apenas nos sustenta enquanto aprendemos a caminhar sem ele.

Hoje acredito que meu luto começou naquele diagnóstico que carreguei sozinho. Porque, por mais que se tenha fé, esperança e confiança na benevolência de Deus, o diagnóstico de um câncer vai nos matando aos poucos, dia após dia.

Após as exéquias, a vida aparentemente seguiu seu curso normal. A saudade era imensa, mas eu precisava continuar. Minha família dependia de mim, o trabalho chamava, as obrigações não cessavam. E eu segui. Ou, ao menos, tentei.

Foi então que caí.

Problemas pequenos tornaram-se gigantes. As emoções vinham em enxurradas. O choro surgia do nada, no meio do trabalho, em momentos de descontração, em dias absolutamente comuns. O luto não pede licença. Ele chega sem aviso e, quando chega, nos desmonta. Não porque somos fracos, mas porque somos humanos.

Foi nesse vale que encontrei Anderson Brito.

Sua presença não veio com discursos prontos nem promessas vazias. Veio com escuta, com perguntas certas, com silêncio respeitoso e, sobretudo, com humanidade. Em cada conversa, fui compreendendo que o luto não é castigo, mas consequência do amor. Que só sofre quem amou profundamente.

Aos poucos, passei a enxergar o luto sob uma perspectiva espiritual mais madura. Compreendi que aqueles que partem não desejam nossa estagnação, mas nossa continuidade. Que a vida não nos é retirada como punição, mas confiada como missão. E que seguir não significa esquecer, mas honrar.

Foi também nesse processo que a humanidade de Cristo se tornou ainda mais real para mim. Jesus chorou diante da morte de Lázaro. Chorou porque amava. Chorou porque sentia. Mas não permaneceu no túmulo. Seguiu, porque havia uma missão a cumprir. Essa verdade simples e profunda passou a ecoar em mim.

Com o auxílio de Anderson Brito, seja no caminho do autoconhecimento, seja nas conversas mais simples, nos desabafos ou nas dúvidas mais profundas, fui sendo reconstruído. Não como quem apaga a dor, mas como quem aprende a caminhar com ela sem ser destruído.

Hoje sei que a única opção possível diante de perdas tão profundas é seguir, superar e honrar o legado daqueles que deram tudo de si para que hoje pudéssemos estar de pé. Meus pais não me ensinaram a desistir. Ensinaram a permanecer.

Este livro nasce exatamente desse lugar.

Que ele seja consolo, auxílio e mão estendida àqueles que, mesmo quando o ninho já não existe mais, precisam continuar caminhando. Que seja um lembrete de que a dor não é o fim da história e de que Deus continua presente, mesmo quando o silêncio parece ensurdecedor.

E que jamais se esqueça.

Continuar não é trair quem partiu.

É honrá-los.

“Esforça-te, e Eu te ajudarei.

 

Claudenilo Pereira Bezerra – Advogado – Eterno Aprendiz

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