“Poema sobre as obras da terra”

Este “Poema sobre as obras da Terra”, de W. J. Solha, engana aos desavisados. Ele não fala simplesmente da terra, o planeta solar que, dizem, ser o único conhecido que abriga vida. Vejo que Solha vai além, buscando racionalmente uma forma poética que atribui à Terra tudo que acontece, que nos toca, de bem ou mal, que nos faz sentir-se integrante desse mundo louco povoado de coisas geniais atribuídos a deuses que nosotros criamos.

Assim, Solha vê que os grandes avanços da humanidade são derivados de erros e tentativas, sem descanso. Por isso, o poeta também se sente à vontade para tentar, através da escrita, sobretudo: “sentindo-me como quem tenta sair de dentro do espelho e não consegue”.

Neste sentido, a espécie humana é a própria Terra em seu trabalho. Com isso, as palavras se juntam vivas, para os txucarramães ou os ianomâmis, ou ainda os africanos massais, “nada de menos, nem demais”.

Como Diógenes de Sinope, Solha anda com sua lanterna, não para procurar um homem honesto. Mas para iluminar a mística que cega os humanos.

Nesta busca pelas obras da Terra, Solha é exortado por Picasso a perceber que a inspiração existe, mas só se encontra trabalhando. Como Mendeleiev ao criar a Tabela Periódica. Nada escapa disso, nem mesmo as roseiras, as aranhas ou os passarinhos, na elaboração dos ninhos. Tudo impacta. Desde a programação que ilustra “com grandes olhos de rapina as asas da borboleta-coruja” até a mangueira, cuja programação faz com que se produza safras de caroços duros como ossos.

A Lua, recentemente algo de nova missão de Nasa, também impressiona com sua múltipla ação de gravitação:

“e que em cada época nos ocorra uma rede tão grande de

conexões,

(descobertas  

e invenções),

que os elementos para todos os avanços parecem estar

“no ar”,

como enorme associação de ideias,

feitas para tudo, mais uma vez,

renovar”

A busca não ignora o aparecimento do Cinema, da Fotografia, nem os meandros que cercam o surgimento de grandes obras literárias, até chegar no realismo mágico de “Cem anos de solidão”.

Das epístolas de Paulo à fábula do escorpião, da Natureza que vem de Deus ao Universo ser uma “esfera com centro em toda parte, circunferência em nenhuma”.

Nesta geleia geral solhiana, não poderiam faltar referências a Shakespeare, nem os efeitos do cristianismo de “enorme negativismo”.

Para usar as palavras do próprio Solha, esta obra se vê como a um trem que passa à toda velocidade em câmera lenta. Esse trem tem nome, e chama-se Terra. Solha pinta esse quadro com ironia, ceticismo e com uma poesia forte que impacta tanto quanto as obras da Terra mencionada no poema.

 

Linaldo Guedes

Editor

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