O amor é essa cidade em que dormes

Por José Mário da Silva

No seu instrutivo livro ABC da literatura, o poeta e teórico norte-americano Ezra Pound afirmou, com invulgar pertinência, que “o domínio de qualquer arte supõe o trabalho de uma vida inteira”. Se a assertiva poundiana vale para todas as searas em que se exercita o ser-fazer criativo do ser humano, máxime o do artista que atua no campo literário, é que tal sentença ganha ainda mais relevo, dado que o escritor, somente com o arrimo do tempo, da maturidade, e da permanente prática daquilo que Carlos Drummond de Andrade chamou de “a luta com as palavras”, é que vai garantindo o seu devido espaço na fascinante e concorrida república das letras.

Dito isso, e tendo como parâmetro amparador a cuidadosa e lúcida apreciação do mestre Sérgio de Castro Pinto, é que me valho das palavras do criador de Breves dias sem freio para, em tonalidade de irrasurável concordância, reconhecer que, com a publicação do livro O amor é essa cidade em que dormes, o jovem Guilherme Morais Régis de Lucena, nascido em João Pessoa, mas radicado em Campina Grande, faz, verdadeiramente, “uma estreia  amadurecida” no difícil e fascinante ofício de escrever poemas, de transformar em arte verbal dotada de inequívoca qualidade, as suas experiências humanas mais significativas, notadamente as que radicam na milenar e atualíssima temática do amor, cantada, em prosa e verso, por escritores de todas as épocas, das mais variadas procedências estéticas, mas que sempre vislumbraram, no amor, uma das mais fundantes e constitutivas dimensões da condição humana.

Guilherme Morais Régis de Lucena é um jovem de apenas 25 anos de idade, mas que já exibe do ponto de vista acadêmico, uma formação no território do Direito, obtida em graduação na Universidade Federal da Paraíba — Campus I. Formação essa já desenvolvida, dado que atua em algumas áreas da espacialidade jurídica. Desde cedo, contudo, nos bancos escolares do Ensino Médio, Guilherme Morais Régis de Lucena já se percebia arrebatado pelas inapagáveis chamas de uma vocação que o impeliu a criar, a esculpir em versos, ora metrificados regularmente, ora não, as suas emoções mais intensas, as suas observações sobre o fremente espetáculo da vida, enfim, a sua peculiar maneira de ser e de estar no mundo.

Mas, paralelamente à necessidade interior que sempre sentiu de encontrar uma forma estética capaz de se compatibilizar com a sua particular maneira de perceber a realidade, Guilherme Morais Régis de Lucena nunca deixou de ser, em tempo integral, um voraz leitor de outros poetas, com os quais sempre buscou estabelecer um permanente e criativo diálogo, por meio do qual, ao acolher a voz do outro, ele anelou encontrar a sua, o seu jeito pessoal de se exprimir esteticamente.

Assim procedendo, o jovem autor paraibano demonstra ter a consciência de que o fazer poético não é fruto de inspirações fáceis que chegam desacompanhadas do labor e do esforço, mas, sim, de um mergulhar contínuo no reino das palavras, o que passa, necessariamente, por uma espécie de poética da leitura. Poética essa que se faz, ostensivamente, presente no livro O amor é essa cidade em que dormes, no qual, as epígrafes emanadas de poemas de Jorge de Lima, Sérgio de Castro Pinto, Hilda Hilst, Alberto Caeiro, Jorge Luís Borges, Ariano Suassuna, Cecília Meireles, Wislawa Szymborska, ao se distanciarem de uma arquitetura citacional opulenta e ociosa, revelam as afinidades eletivas do talentoso escritor. Em suma: aqui, criação e leitura dão-se as mãos numa travessia sobremaneira harmoniosa, própria de quem, com apuro e refinada delicadeza, promove as suas ricas e diversificadas interações intertextuais.

No livro em tela, feliz aparição de um jovem escritor no reino infinito da poesia, Guilherme Morais Régis de Lucena, em vários poemas, trabalha, com louvável competência, com um dos mais importantes extratos do discurso poético: o ritmo, sem o qual a poesia depaupera-se, ficando, em seu lugar, o retinir duro e desgracioso de uma mera prosa versificada, equívoco em que laboram os destituídos do genuíno e cálido fogo da poesia. Aristóteles, na seminalidade da sua emblemática obra A poética, já advertia que a metrificação, desprovida do vigor anímico do ritmo, jamais se converte em poesia. Desse naufrágio, Guilherme Morais Régis de Lucena está livre.

Amor, desejo, erotismo, crítica social, saudade, silêncio, sonho, solidão, encontro, noite, despedida, dentre outros igualmente detectáveis, são sememas dominantes na diegese lírica que, com engenho e arte, Guilherme Morais Régis de Lucena engendrou, diria Cecília Meireles, com a mobilização da estranha potência das palavras. Estreia amadurecida e promissora, a de Guilherme Morais Régis de Lucena.

 

(Artigo publicado no jornal A União, em 28 de maio de 2026)

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