PREFÁCIO PARA GRACILIANO RAMOS

A facilidade de comunicação rápida e eficiente propiciada pela internet, também nos oferece uma outra face da moeda, a de um mundo que quanto mais se expõe, mais se desumaniza. Estamos diante do excesso de informações, de imagens, de filtros e de ilusões que nos envolvem ininterruptamente. Como os juazeiros e as baraúnas é preciso resistir a essa secura de reflexão crítica, buscar o essencial para compreender nossa existência. Para essa difícil jornada de descoberta, nada se compara à força da memória, e é ela a base para a construção da obra de Graciliano Ramos.

Como não pensar em uma capacidade poética extremada, presente em Vidas secas, ao lermos a descrição a respeito das formas da natureza? A maneira como a caatinga é retratada, como o sol é descrito, como o céu é visto por Fabiano, como a paisagem é observada por Sinhá Vitória, e como os meninos percebem esse mundo áspero, em que praticamente não brincam e onde também perdem a única alegria que possuíam, Baleia. Esse idílio às avessas só tem refreio quando Fabiano e Sinhá Vitória recordam ou fantasiam a paisagem verdejante sempre ansiada pelo sertanejo. Mas essa imaginação esperançosa é uma representação fugaz de sossego, pois os personagens estão sempre dependentes da vontade dos poderosos, dos que possuem a terra.

Todos esses aspectos são analisados de maneira sensível e minuciosa por Maria de Lourdes Dionízio, que revela o caráter poético da linguagem de Graciliano Ramos, numa abordagem praticamente inédita, que a autora, com refinamento de leitura e pesquisa, soube encontrar, por exemplo, no ensaio de Anatol Rosenfeld, “Graciliano Ramos como poeta da seca” – um tesouro imune à afetação terminológica que infestou a crítica literária contemporânea. Tal condição poética pretende abarcar a existência em concisão, não desperdiçar as palavras. Emergem desse universo os desvalidos, as crianças, as mulheres, os homens, os idosos, e como não lembrar de Baleia? Síntese da fragilidade animal também suscetível às agruras da vida, ao destino traçado pelas injustiças das mais diversas esferas retratadas pelo autor, onde animais e seres humanos se encontram em um mesmo estágio de degradação diante de uma dinâmica social e política ainda presente entre nós, mascarada na forma de emendas pix que seguem tangendo milhares de pessoas Brasil afora.

Mesmo com avanços inegáveis em relação à educação e ao desenvolvimento econômico, a bolandeira tão simbólica no romance de Graciliano Ramos continua moendo as vidas secas em nossa sociedade. O soldado amarelo, símbolo da “autoridade” opressora tão odiada por Fabiano, é agora representado pela força das milícias, do crime organizado, infiltrados na política, no judiciário e em estruturas diversas da sociedade, não só, mas também nos sertões desse Brasil.

Não é possível ler o trabalho de Maria de Lourdes Dionízio sem estabelecer essas conexões com a realidade de nosso país. Em seu texto encontramos uma base teórica coerente e muito bem articulada que enfatiza os aspectos poéticos na escrita de Graciliano. Mas é a voz de Lourdes que se destaca nessa trajetória, evidenciando que essa “poesia da negação” busca representar uma realidade sem ilusões. O desespero da consciência em Luís da Silva, as recordações vivazes em Infância, que nos revelam o quanto é dolorosa a submissão da criança ao autoritarismo dos adultos, as mãos de Paulo Honório, tão eficientes para o trabalho como para o manejo do chicote, e tão pesadas para a existência de Madalena.

Maria de Lourdes Dionízio percebeu, com muita sensibilidade, os caminhos da memória na escrita de Graciliano Ramos. Sua análise tem como foco central Vidas secas, mas acaba percorrendo outras narrativas como Infância, Angústia e São Bernardo. Esse conjunto de obras que mesclam ficção e aspectos biográficos do autor vem analisados sob a ótica da poesia, tão presente nas imagens dessas histórias, através de uma linguagem precisa e sem adornos, representação verdadeira do que é fundamental para a arte. É Graciliano quem diz: “Certas coisas existem por derivação e associação; repetem-se, impõem-se – e, em letra de forma, tomam consistência, ganham raízes”. A raiz de sua obra é fasciculada, não há um eixo memorialístico principal: as lembranças individuais e as coletivas tomam forma em um espaço repleto dos que não querem e não podem esquecer. Como está escrito no final de Vidas secas, os poucos personagens compõem a grande humanidade: “Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos.”

O leitor vai encontrar no texto de Maria de Lourdes uma percepção crítica apurada, sem estereótipos, sem caricaturização, seguindo a linha traçada pelo próprio Graciliano, que revela a cultura do sertão sem chavões e sem pitorescos “regionalismos”. Seus personagens são viventes das Alagoas e de qualquer parte, estão espalhados mundo afora tentando decifrar nossa existência de caminhos dolorosos, mas também de esperança. Dessa forma, o trabalho de Maria de Lourdes é de extrema importância para a fortuna crítica de Graciliano Ramos, proporcionando aos leitores veteranos da obra mais uma vertente crítica, assim como oferece aos iniciantes uma via de conhecimento consistente e bem direcionada, cuja delicada destreza sabe observar a vida e transitar pelos caminhos da poesia.

 

Mona Lisa Bezerra Teixeira

Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP

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