O primeiro livro de poesia é sempre complicado. Complicação que passa necessariamente pela escolha dos poemas a serem inseridos na obra. Daiana Baingo, jovem autora sousense, vai na contramão dessa assertiva.
Seu “Pequeno inventário das coisas perdidas” consegue aliar o frescor natural da estreia com uma maturidade poética na seleção dos textos e dos temas evocados em suas páginas.
É do solo do sertão que se faz esta obra. Do solo e da alma. Com um toque de nostalgia que já se anuncia no primeiro poema, falando do aroma de café nas músicas do rádio. O ritual segue nas demais páginas, trazendo à tona, de forma lírica, as cores do sertão. Seja nas cadeiras na calçada, nas brincadeiras da infância, na urgência em soprar feridas com o mertiolate vermelho, na delicadeza das casas do interior, no sesto de escrever, na impossibilidade de ser, na invenção de amores ou em outros temas.
Daiana Baingo não reduz seu sertão a secas e sofrimento. Seu sertão é urbano, com tempo poético para olhar também os lírios que nascem nos campos e nas cidades.
Uma poesia que já nasce sobrevivendo a tudo, como a quixabeira sobrevive à falta d’água.
Linaldo Guedes
Editor