A psicóloga que virou escritora

Conheço Lucione desde pequena, quando ia para casa de sua mãe por conta da minha amizade com Luciano, seu irmão. E eu sempre ficava observando aquela garotinha ruiva de cabelos cacheados, em seu mundo de bonecas e sonhos. Tempos depois encontrei Lucione em João Pessoa, agora morando na casa de minha mãe, seu abrigo enquanto fazia o curso de Psicologia.

Mas a vida dá saltos e eu voltaria a encontrar Lucione quando retornei a Cajazeiras. Ela não morava mais aqui, mas sempre estava vindo visitar a família, inclusive o irmão. Agora, já era psicóloga atuante no Ceará, mas mantinha o mesmo brilho e energia positiva daquela garotinha. Em 2020, com todos nós confinados por conta da Covid, ela me procura. Teve um insight de uma historinha após conversas com suas Marias e queria saber se valeria a pena transformar essa ideia em livro.

Claro que sim! Surgiu, então, os “Cachinhos de Mili”, história infantil que contribui muito para reflexão sobre os preconceitos que envolvem nosso viver neste mundo, no caso deste livro, em relação aos cabelos crespos, cacheados. A narrativa me surpreendeu, por não conhecer esse lado literário de Lucione. Uma narrativa simples, direta, como deve ser um livro infantil, mas com ludicidade, diálogos e uma trama bem construída do começo ao fim. O livro esgotou rapidinho na sua versão impressa e hoje só tem em e-book, coroando sua estreia literária.

Estamos em 2022. Nem saímos direito da pandemia, mas ficamos todos feridos com perdas de parentes, amigos e de pessoas que admiramos. Lucione nos procura para um novo livro: “Quem morre vira estrelinha?”, indaga o título da obra. A perda do irmão, a pandemia que matou mais de 600 mil pessoas no Brasil, enfim, todo esse luto motivou a autora a relatar, em livro, casos clínicos sobre a dificuldade que temos, nós adultos, de falar sobre a morte para crianças.

E por que tanta dificuldade? Talvez pela tola presunção de que somos imortais, infalíveis, que não estamos aqui para semear, para ser semente, mas para ser uma árvore indestruível ao sabor do tempo. Vejam o caso dos antigos faraós, que mumificavam seus corpos após a morte alimentando a ilusão da eternidade. A morte é capaz de rituais longos, em alguns casos. Mas continuamos sem saber lidar com ela, principalmente quando envolve pessoas queridas. Por isso, mais fácil silenciar sobre ela, buscar razões religiosas para a eternidade da alma, já que o corpo acaba. Tem uma canção de Gilberto Gil que provoca: “se a morte faz parte da vida e se vale a pena viver, então morrer vale a pena”. Não pensamos assim, infelizmente. E daí, sofremos quando perdemos quem amamos. Na verdade, não somos preparados desde pequeno para a morte, para o fim de tudo. Por isso, esse tabu de falar sobre o assunto com crianças.

O livro de Lucione não se propõe a ser uma cartilha ou um guia sobre o tema. Na verdade, são reflexões da autora a partir de sua experiência pessoal de perdas e dos casos que atende em sua clínica. Ele, o livro, não responde às nossas perguntas e questionamentos sobre o tema, mas propõe reflexões a partir de capítulos como: Por que ele morreu?, Ele é muito pequeno para saber a verdade, A morte de uma criança e o irmão que ficou, Os lobisomens que atacaram minha mãe, A carteira vazia, Quem morre vira estrelinha?, O álbum de fotografias. etc.

São relatos que emocionam. Principalmente pela forma como Lucione conduz as narrativas. Parecem pequenos flashes que dariam documentários ou curta-metragens, tal a capacidade de fabulação que Lucione emprega nos textos. Não tenho medo de afirmar que apesar de ser um livro com forte carga psicológica em sua essência, na forma ele não deixa de ser literário. Não é um livro técnico e apesar de conter histórias a partir de fatos reais, são textos que servem, também, como literatura, na medida em que investe na narrativa, na ambientação, no cenário, nos diálogos, na ludicidade. Se tivesesse que buscar algo de bom surgido nessa pandemia, citaria, sem medo de errar, o florescer de Lucione Andriola como escritora.

 

Linaldo Guedes

Agosto de 2022

 

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– O livro “Quem morre vira estrelinha?”, de Lucione Andriola, pode ser adquirido no site da Arribaçã no seguinte link: http://www.arribacaeditora.com.br/quem-morre-vira-estrelinha-e-outras-historias-sobre-os-medos-e-tabus-dos-adultos-de-falarem-de-morte-com-criancas/

– A obra pode ser adquirida, também, no formato digital, em e-book, no site da Amazon.

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