Por Linaldo Guedes
Mais do que um tributo, este “Holocaustos quase invisíveis, além do quarto de despejo”, de Neuzamaria Kerner é um resgate da obra e da vida de Carolina Maria de Jesus, escritora negra, pobre e favelada que vendeu mais de 10 mil exemplares de seu livro de estreia – “Quarto de Despejo: Diário de uma favelada” – em apenas uma semana, em meados dos anos 1960. Traduzida para vários países do exterior, sua vida de dificuldades pouco mudou e o que recebia de direitos autorais mal dava para sobreviver.
Neuzamaria Kerner faz uma espécie de transfiguração da vida e obra de Carolina Maria de Jesus através de uma poesia lírica, mas às vezes crua, como era a realidade da homenageada. E também epifânica! Não é à toa que os poemas deste livro são divididos por versículos. Sim, estamos a falar daquelas unidades de texto que compõem os textos bíblicos para facilitar a memorização das escrituras. No caso de Neuzamaria Kerner é uma espécie de associação com a devoção de Carolina Maria de Jesus, que mesmo com todos os percalços que enfrentava não perdia a fé e se refere a Deus de maneira terna e agradecida em seu diário.
Assim, Neuzamaria Kerner começa o seu livro falando, já no primeiro versículo poético, do amanhecer: “a manhã viu tudo”. Sim, é o que veremos nos poemas (versículos) seguintes da obra. Afinal, os olhos inquietos “caminham sobre meu corpo:/mapas emaranhados se esparramavam/por todo lugar./Eram como papel amassado/que nenhum ferro passado/poderia desenrugar”. Não dá para não associar esses versos a própria vida de Carolina Maria de Jesus, que catou papel nas ruas para sobreviver e até mesmo para construir sua casa.
Neuzamaria Kerner segue, nas páginas seguintes, transfigurando Carolina Maria de Jesus em sua poética. Num versículo, deixa que o sal da agua “salgue minhas carnes/para que não apodreçam/com o cheiro dos sargaços”. Em outro, revela que a comida do prato virou fome passageira, “porque a caneta certeira/me salvou e me valeu”. Não podemos esquece que a realidade era crua para Carolina Maria de Jesus, como a poeta liriciza no versículo IX:
“No sonho
anjos promovem festas
quase impossíveis de acontecer:
Casulos parem borboletas
que buscam vidas amenas
enchendo de riso e milagre
as noites que sonham serenas.
Na vigília
diabos de raios ardentes
promovem gargalhos agudos:
Riem fogo por entre os dentes
incendeiam as aquarelas
que tinham a cor da esperança
no topo das frias favelas.”
Há que se ter paixão e um pouco de erotismo para superar essa realidade, como diz o versículo X:
“Cobriu-me de adornos
virou dono dos meus olhos
e me comeu o corpo
antes mesmo de possuí-lo.”
Mas isso é apenas uma pausa, antes de narrar a favela na chuva: “De pau em pau surge um quarto/e de papelão faz-se um teto./Quando chora o céu sobre nós/a água parece sem fim.” Milagres existem, para quem é “sobrevivente de uma torrente de luta e vida!” E para quem vive sonhando com vitórias mesmos nos cantos malditos: “porém sigo casta de ódios, assim como o rio que segue”. As indagações não faltam: “não sei por quanto despejo/não sei por que tanto desejo/de continuar…” E de silêncios essa luta, “para que eles não matem/a força da minha palavra”. Mesmo para quem teve a ceia da existência negada, assim como o Crucificado.
Mas há sempre uma esperança. Porque a vida, apesar dos pesares, “é muito para virar nada”. O que importa é preservar sua identidade:”
“Nunca serei estranha de mim mesma
porque sei o que sou neste momento.
Estou na cor, mas não a tenho.
Estou a catar coisas, mas não as sou
Não me rasguei e nem sou a cortina
rasgada da minha parca janela.
Sou peregrina como todos
Sou bailarina na vida onde estou
Sou eu e mais ninguém
e esta identidade é que me deu sentido:
– Eu sou.”
Se o medo mata a vontade de seguir e se banaliza o sofrer, existe algo além de apenas colecionar calos. Sempre há um duelo, um combate para vencer:
“Nunca entendi por que vim nesta vida.
Nunca entendi o porquê de outros também.
Agora
mesmo fora deste mundo em que vivi
sei das lutas que travei
sei das fomes que senti.”
Em um dos poemas do livro, o eu-lírico fala que sofre de sonhos. E talvez essa seja a melhor definição para a trajetória de Carolina Maria de Jesus neste mundo. Neuzamaria Kerner constrói um livro que já nasce clássico. Como uma forma de resgatar a história, a vida, a literatura de um ser humano que esteve além de seu tempo. Uma forma sensível de reconhecer que poesia e vida se misturam da forma mais verdadeira possível em Carolina Maria de Jesus.
