Sobre “O Nome do Corpo e Outras Desobediências”

Rosilene Leonardo escreve a partir de um lugar de verdade, não tenta suavizar o corpo nem o esconder atrás de metáforas que o afastem da experiência humana. Em “O Nome do Corpo e Outras Desobediências”, o corpo feminino ocupa o lugar que sempre lhe pertenceu: o de sujeito da própria história. Ao conduzir o leitor pelo coração, pela boca, pelas costas, pelos olhos, pelo útero, pelas pernas, pela pele, pelas cicatrizes e pelas mãos, a autora mostra que cada parte do corpo também guarda memórias, afetos, conflitos, desejos e marcas do tempo. Não é apenas um percurso pela anatomia, mas pela subjetividade de quem vive, sente e atravessa o mundo sendo mulher.

Como psicóloga, encontrei nesta obra algo que também faz parte da clínica: compreender que o corpo fala. Muitas experiências não encontram espaço na linguagem cotidiana e acabam sendo inscritas na pele, no silêncio, na forma de existir. As palavras de Rosilene Leonardo acolhem essas experiências sem moralizá-las. Ela trata a carne como parte inseparável da identidade, sem culpa, sem censura e sem a necessidade de justificar o desejo ou a liberdade.

Sua escrita provoca porque rompe com uma tradição que ensinou tantas mulheres a sentirem vergonha do próprio corpo. Aqui, o corpo aparece como território de memória, de prazer, de resistência e de reconhecimento. Há delicadeza, mas também firmeza. Há denúncia, mas, sobretudo, humanidade. As desobediências presentes nesta obra não são gestos de enfrentamento vazios. São movimentos de quem compreendeu que viver de forma inteira também é um ato de saúde emocional. Existe um profundo convite para que o leitor escute aquilo que tantas vezes foi silenciado e reconheça que cada cicatriz, cada afeto e cada desejo também fazem parte da construção de quem somos.

Mais do que um livro, esta é uma obra que amplia nossa compreensão sobre o feminino, sobre o corpo e sobre a experiência humana. Uma leitura que toca porque fala de algo que todos carregamos: a necessidade de sermos reconhecidos na inteireza da nossa existência.

 

Raniele Batista Mamede

Psicóloga e Poetisa

 

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